Artigos | Postado no dia: 16 outubro, 2025

Envelhecer LGBT+: um ato de resistência e pertencimento

Introdução

Falar sobre envelhecimento é falar sobre tempo — o tempo que passa, o tempo que marca e o tempo que ensina. Mas quando falamos sobre envelhecer sendo LGBT+, falamos sobre uma travessia marcada pela coragem de permanecer vivo e assumido, mesmo diante de uma sociedade que, por muito tempo, negou essa existência.

Na última sexta-feira, tive a oportunidade de falar sobre o tema a convite do CREAS, e a experiência reforçou algo que carrego comigo há muito tempo: precisamos falar mais sobre envelhecer LGBT+, especialmente nos espaços públicos. Porque é ali, onde se constroem políticas de acolhimento e cuidado, que esse debate faz diferença real na vida das pessoas.

 

O envelhecimento que ainda carrega o peso do silêncio

Quando pensamos em envelhecer, geralmente imaginamos histórias lineares: aposentadoria, família, tempo para descansar. Mas essa imagem não representa todas as trajetórias.

Para muitas pessoas LGBT+, o envelhecimento vem acompanhado da ausência de laços familiares, de redes de apoio frágeis e, muitas vezes, da solidão — uma solidão que não é escolha, mas resultado de exclusão.

Há uma geração inteira que cresceu em um Brasil onde assumir-se significava risco, e mesmo assim resistiu. Essa geração hoje está envelhecendo. E o grande desafio é garantir que essas pessoas não sejam empurradas novamente para o silêncio, mas reconhecidas como parte da história viva da nossa sociedade.

 

Envelhecer e permanecer vivo e assumido

Durante a palestra, compartilhei algo que acredito profundamente: envelhecer e continuar vivo e assumido é um ato político.

Viver abertamente, depois de tantas tentativas de apagamento, é continuar lutando pelo direito de existir. Cada pessoa LGBT+ idosa que continua afirmando sua identidade, mesmo quando o tempo passa, é um símbolo de resistência.

Ser quem se é, com a serenidade que vem da maturidade, é revolucionário em um país que ainda tenta negar a legitimidade dessas existências.

Continuar assumido significa também manter viva uma memória coletiva — das lutas, das perdas, das conquistas e das alegrias que moldaram a comunidade LGBT+.

Não é apenas sobre o indivíduo, mas sobre uma geração inteira que abriu caminhos. Essas pessoas são a prova de que resistir é possível, mesmo quando o mundo insiste em não compreender.

 

Pertencimento e cuidado: o que realmente importa

Quando falamos de envelhecimento, quase sempre falamos de cuidado. Mas o cuidado não se resume a oferecer assistência médica ou social. O cuidado verdadeiro envolve pertencimento.

Pertencer é poder ocupar os espaços públicos e institucionais sem precisar esconder quem se é.

É poder chegar a um hospital, a um centro de convivência, a um serviço público e ser tratado com respeito, pelo nome que se escolheu, com o reconhecimento da sua história.

Pertencer é poder envelhecer cercado de vínculos — afetivos, comunitários e institucionais — que acolham e não julguem.

Pessoas LGBT+ idosas precisam se sentir parte do tecido social, e não à margem dele.

Quando o pertencimento é real, o cuidado se torna integral: corpo, mente e dignidade andam juntos.

 

O papel dos espaços públicos na construção dessa escuta

A experiência no CREAS reforçou algo fundamental: é nos espaços públicos que a transformação começa.

São esses espaços — onde profissionais da assistência, psicólogos, educadores e gestores atuam — que têm o poder de transformar escuta em política, e política em acolhimento.

Levar o tema do envelhecimento LGBT+ a um órgão público é mais do que um gesto simbólico; é um passo concreto em direção à inclusão institucionalizada.

Quando esses temas ganham lugar nas formações, nos debates e nas práticas de atendimento, a diversidade deixa de ser exceção e passa a ser parte da rotina.

É assim que as mudanças estruturais começam: com informação, sensibilidade e vontade de fazer diferente.

 

O envelhecimento como direito e memória

Envelhecer LGBT+ é, ao mesmo tempo, um direito e uma forma de memória viva.

Direito, porque a Constituição garante dignidade a todas as pessoas, em todas as fases da vida.

Memória, porque cada idoso ou idosa LGBT+ carrega consigo a história de um tempo em que ser quem se é era quase um ato de heroísmo.

Essas histórias não podem ser esquecidas. Elas precisam ser contadas, celebradas e ensinadas.

Elas mostram que a diversidade não é moda nem pauta recente — é parte da construção social e cultural do país.

O envelhecimento LGBT+ nos obriga a olhar para o passado com respeito e para o futuro com responsabilidade. Afinal, a forma como tratamos as pessoas que envelhecem hoje revela muito sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.

 

Transformar presença em política

Cada evento, palestra e debate é uma oportunidade de transformar presença em política.

Quando as pessoas LGBT+ estão nos espaços públicos falando de si, elas não estão pedindo permissão para existir — estão exercendo um direito constitucional: o de participar, o de ser ouvida, o de contribuir para o desenvolvimento social.

A presença dessas vozes nos espaços institucionais é o primeiro passo para criar políticas públicas mais sensíveis, eficazes e humanas.

Falar sobre envelhecimento LGBT+ é garantir que ninguém seja deixado para trás quando se pensa em cidadania.

 

Conclusão

Envelhecer sendo LGBT+ é, em si, um ato de resistência e de orgulho. É a continuidade de uma luta que começou muito antes e que ainda precisa ser reafirmada todos os dias.

Mas também é uma celebração — da vida, das trajetórias e das conquistas que hoje nos permitem falar abertamente sobre quem somos.

A palestra no CREAS foi um lembrete de que cada conversa conta. De que a transformação começa quando o tema deixa de ser tabu e passa a ser compromisso coletivo.

E que, no fim das contas, envelhecer LGBT+ é mais do que sobreviver: é continuar vivo, visível e assumido, com o direito de ser cuidado, ouvido e respeitado.